Por Adriana Rodrigues do Nascimento adriana@primeinf.com.br
1. INTRODUÇÃO
Atualmente o capital e tecnologia movem-se rapidamente com muita facilidade, com este avanço o ser humano tem um espaço de tempo pequeno para fazer todas as suas atividades do dia. A importância de aprender - rapidamente - como caminho para garantir a competitividade das empresas no longo prazo, faz com que o aprendizado seja feito em qualquer lugar e horário, usando a tecnologia "e-learning" (ferramenta de ensino á distância). Este artigo se propõe a demonstrar o avanço da tecnologia "e-learning" existentes nas empresas/escolas.
2. DESCRIÇÃO DO PROBLEMA
Um dos desenvolvimentos técnicos mais interessantes deste século é o casamento da informática e educação, o qual tem trazido uma gama de novas tecnologias de informação e comunicação, que a cada dia nos surpreendem com seus potenciais aplicados na vida moderna. O problema então reside em mostrar para empresa/escola o quanto a tecnologia e-learning é uma boa solução.
Com o surgimento de novas tecnologias, como a multimídia os sistemas de ensino vêm possibilitando a exploração do uso educacional das tecnologias de rede e das diversas aplicações Internet onde podem apoiar-se em diferentes vertentes de pesquisa e desenvolvimento.
3. DIÁLOGO COM OS AUTORES
A tecnologia e-learning é algo que está crescendo na educação, o texto de Dieuzeide (1994), nos situa na formação desta ferramenta dizendo que: "a abordagem "pela ferramenta" nos levará a examinar essencialmente como estas técnicas são suscetíveis de serem postas a serviço dos objetivos maiores estabelecidos pela instituição educativa."
Esta abordagem considera o uso das tecnologias de informação e comunicação em diferentes situações de aprendizagem e busca estabelecer critérios de escolha das técnicas mais apropriadas a cada situação, numa perspectiva pedagógica e não de invenção técnica.
Dieuzeide adverte contra os modismos, lembrando que a introdução de uma inovação técnica na educação deve estar orientada para uma melhoria da qualidade e da eficácia do sistema e priorizar os objetivos educacionais, e não as características técnicas.
A crescente utilização das tecnologias da Internet no campo da educação e treinamento terá um profundo efeito no modo como as pessoas aprendem e no modo como serão instruídas. Koonce (1998) coloca que: "da Instrução Baseada na Web e do aprendizado à distância para a realidade virtual e para as comunidades on line, o treinamento e a tecnologia estão convergindo de um modo rápido e radical. Essa convergência, acelerada pela Internet e pelo crescimento do emprego das Intranets nas empresas, está tendo um impacto revolucionário tanto na natureza do treinamento quanto nas habilidades que os instrutores precisarão para executar seu trabalho no próximo século." (p.1) Atualmente a Web pode ser muito útil para atender as diversas necessidades de treinamento dentro das empresas/escolas onde o avanço ao ensino pode ser estruturado numa Intranet/internet.
Educando o Cidadão do Século XXI: Novas Necessidades e Novas Ferramentas.
O perfil do que chamamos de estudante está evoluindo constantemente. Uma vez definida como "idade escolar" de 5 a 24 anos, o estudante "tradicional" ia à escola em período integral. Na graduação, o acesso a mais educação tornou-se difícil ao assumir responsabilidades de trabalho, família, e compromissos de adulto. Na década passada, o PC e a Internet transformaram o acesso que os adultos têm às oportunidades educacionais, “tornando-as possíveis para mais indivíduos que nunca ao acessar conhecimento e aprender de novas e diferentes maneiras”.
A Internet expandiu o acesso à informação, tirando a dependência tanto do professor como do estudante de um limitado alcance às fontes de informação. A educação não está mais determinada pelos limites do professor, dos livros de textos, ou pelos livros de referência da biblioteca da escola. A educação está limitada somente ao interesse do estudante. Esses novos modelos de aprendizagem possibilitam ao professor agir como um facilitador do aprendizado, um mentor, e guiar o estudante através de assuntos que não exijam que o estudante passe um número de horas pré-estabelecido na sala de aula. A Internet agora traz acesso às bibliotecas do mundo para escolas e residências remotas. A tecnologia acelerou o crescimento e expandiu a definição do perfil do estudante “não-tradicional”.
Novos modelos de aprendizado têm também emergido com o crescimento do número de escolas domésticas e escolas de currículo livre. Alternativas de aprendizado não-tradicional estão crescendo em popularidade, possibilitando a mais estudantes de hoje, de qualquer idade, a oportunidade de desenvolver experiências de aprendizado mais personalizadas e ligadas aos seus objetivos de aprendizagem individuais e aos seus estilos de vida.
Inclusão digital
Todos nós reconhecemos que o acesso à tecnologia não é distribuído igualmente. Ainda existe uma disparidade entre aqueles que têm a possibilidade do digital e aqueles que não a têm. Somente 31% dos estudantes aproveitam o acesso à Internet em casa. 56% dos estudantes nos Estados Unidos têm acesso à Internet na escola.
Mas não é somente o acesso à tecnologia que é importante na criação de um mundo de inclusos digitais. Mais importante é a aquisição de "aptidão literária digital" — o conhecimento e habilidades necessários ao uso destas tecnologias e a habilidade de se adaptar ao rápido compasso de suas mudanças que são a indicação de qualidade e legitimidade de seu desenvolvimento corrente. O entendimento de como estas tecnologias trabalha e a construção deste conhecimento para a adaptação de artifícios mais novos fornece as oportunidades de sucesso nos locais de trabalho e de participar ativamente da sociedade.
Judy West, uma autora baseada em Dallas, consultora, e especialista em recrutamento via Internet, indicou em artigo recente que trabalhadores que não têm Internet nem conhecimento da tecnologia são "equivalentes aos imigrantes chegando ao porto de Nova York pela primeira vez. Os imigrantes que fizeram o investimento em aprender como falar, ler, e escrever inglês fluentemente conseguiram os trabalhos mais bem remunerados. Aqueles que aprenderam somente como falar inglês conseguiram trabalhos de medianos a mal-remunerados, e aqueles que não aprenderam inglês de jeito nenhum conseguiram trabalhos braçais, de cavar valas, e outros trabalhos mal-remunerados".
A habilidade de acessar, usar e se adaptar às ferramentas de nosso tempo está se tornando um conjunto de práticas necessárias para o sucesso acadêmico e profissional. Muitas escolas estão tentando integrar habilidades computacionais nas salas de aula atualmente, e John Bailey, Diretor do Departamento de Tecnologia Instrutiva do Escritório de Educação dos Estados Unidos, indicou que a tecnologia será essencial para implementar os requisitos do Ato Nenhuma Criança Deixada Para Trás do Presidente Bush. A inclusão digital é imperativa para todos os cidadãos do século XXI.
Não, não e não!
Fonte: PcWorld Autor: Fernanda K. Ângelo
Tecnofobia: resistência ao uso de novas tecnologias
Com a disseminação maciça da tecnologia e as novidades high tech pipocando nas lojas a todo instante, pode parecer estranho que algumas pessoas ainda sejam completamente avessas a computadores e equipamentos eletrônicos em geral. Mas enganam-se os que acham que é incomum encontrar indivíduos com esse tipo de resistência. A dificuldade de uso de recursos tecnológicos tem até nome: tecnofobia. O comportamento não pode ser enquadrado na categoria das fobias já catalogadas, como a claustrofobia ou a repulsa a insetos, segundo o professor doutor em psicologia Alípio Ramos Veiga Neto. "Trata-se, mais apropriadamente, de um tipo de resistência ao uso de tecnologias ainda não muito popularizadas. Também poderíamos chamar a atitude de 'tecnorresistência'", explica. De acordo com o especialista, para que a tecnofobia pudesse ser inserida entre as fobias convencionais ela teria de desencadear um medo irracional no indivíduo com a simples aproximação a qualquer equipamento tecnológico. Muitas pessoas vivem situações bem próximas a isso. É o caso de Heloisa Helena Barros Inocêncio. A profissional teve crises de choro, dores de estômago, taquicardia e insônia quando soube que seria transferida para o atendimento da agência interna dos Correios no supermercado onde trabalha. Heloísa precisaria aprender a usar o computador e o sistema da agência. "Foi dificílimo. Morro de medo de mexer, de apertar a tecla errada e apagar tudo", conta ela. "Se eu tivesse qualquer outra opção, sairia de lá para fugir daquelas máquinas", admite Heloísa. As dificuldades da atendente com a tecnologia não param no computador. Ela também se define incapaz de usar metade dos recursos do telefone celular. "Não terei uma convivência harmoniosa com essas coisas nunca", confessa Heloísa. Embora não exista um determinado tipo de pessoa ou profissão mais propensa à tecnofobia, Veiga Neto diz que é possível verificar mais incidência desse comportamento entre os idosos e os indivíduos com menor poder aquisitivo e que, conseqüentemente, têm menos acesso à educação formal. É a resistência ao novo, ainda que muitos expliquem o porquê da aversão. Sumiko Maekawa, professora universitária há 34 anos, por exemplo, diz que não gosta de tecnologia e seus avanços por uma série de fatores. "Nada me prova que o celular não tenha participação no desenvolvimento de enfermidades", diz a professora. Sumiko acredita que os jovens estão cada vez mais doentes por conta das inovações tecnológicas. "Tudo o que o homem adquire com rapidez é refletido em males que surgem na mesma velocidade", afirma. Para ela, além de causar males físicos, os equipamentos eletrônicos esfacelam a família. "Acho um desrespeito a entrada da televisão na sala de estar. Depois da massificação da TV, as famílias perderam contatos rotineiros e emocionais. Elas não conversam mais para assistir à televisão". A professora também acredita que a web destrói valores familiares. "A internet é fonte de falcatruas, os filhos passam a transgredir regras e, o que é pior, os casais se traem virtualmente", diz. Para Veiga Neto, a dimensão dos problemas sociais no Brasil acaba minimizando a importância de deficiências como a tecnofobia, embora ela possa implicar dificuldades e prejuízos no dia-a-dia das pessoas afetadas. Segundo o especialista não é comum encontrar casos de pessoas apenas com tecnofobia. Esse comportamento, segundo ele, normalmente é acompanhado de outros distúrbios. Se o problema estiver afetando a vida do indivíduo, o psicólogo aconselha a busca de tratamento. "Um papo com um especialista pode ser uma boa decisão para quem está com dúvidas a respeito", sugere. Para as pessoas com tecnofobia, Veiga Neto dá a dica: "Veja a tecnologia como um brinquedo. Faça como a criança, divirta-se. E, se o computador travar, chame um técnico, fique ao lado dele e pergunte tudo o que tiver vontade, mesmo que ele faça uma cara bem feia”.
O papel do Supervisor frente às Novas Tecnologias
Não há dúvida de que o mundo vive uma mudança de paradigma, um desconforto de todos em busca de respostas diante de tantas mudanças. Isso se deve em grande parte ao avanço da tecnologia. O surgimento da televisão provocou uma enorme mudança de comportamento em uma determinada época, imagine então o computador e a Internet. A possibilidade de manter-se informado sobre diversos assuntos provenientes de diversas partes do mundo instantaneamente era algo inimaginável para as pessoas há apenas algumas décadas atrás, e isso é possível agora.
O que o professor ou o supervisor escolar têm a ver com isso? Muita coisa. Por quê? Pelo simples fato de que as pessoas com as quais eles lidam, direta ou indiretamente, estão vivendo essa mudança e precisam do auxílio do professor e do supervisor para saber como aproveitar essa mudança da melhor maneira possível para que ela não acabe sendo prejudicial. Os alunos, crianças e adolescentes, estão dentro desse mundo repleto de informações, de novidades tecnológicas convivendo diariamente com isso, e os professores e os supervisores não podem excluir-se, mostrarem-se descrentes ou amedrontados diante de tudo isso.
As novas tecnologias que incluem não apenas o computador com seus programas e a Internet, mas também a televisão, o rádio, o vídeo e, modernamente, o DVD, não podem ser vistos como vilões prejudiciais ou substitutos dos professores. O papel do professor é insubstituível, pois diante de tantas modificações e informações é preciso que haja alguém que auxilie o aluno a analisar criticamente tudo isso, verificando o que é válido e deve ser utilizado e o que pode ser deixado de lado. Apesar da facilidade de acesso a informação que a tecnologia nos permite, o professor continua sendo indispensável para que a tecnologia seja utilizada corretamente.
O uso da tecnologia em sala de aula é bastante válido no sentido que possibilita “um ensino e uma aprendizagem mais criativa, autônoma, colaborativa e interativa”.(Faria, 2001, p.64). No entanto, o professor ainda, muitas vezes, mantém-se apreensivo e reticente em utilizar a tecnologia em sua aula. Segundo Heide e Stilborne (2000, p. 24) muitas são as razões para que o professor haja dessa maneira: não saber como utilizar adequadamente a tecnologia nas escolas, não saber como avaliar as novas formas de aprendizagem provenientes desse uso, não saber como usar a tecnologia e, algumas vezes por falta de apoio dos colegas ou da escola para o uso de inovações em sala de aula.
Diante dessas dificuldades e de outras que possam surgir, a solução ou o auxílio devem vir do supervisor escolar. A busca de novas técnicas ou métodos que auxiliem a aprendizagem do aluno é algo constante na ação do supervisor, dessa forma o uso da tecnologia é algo que vem auxiliar essa ação. Professor e supervisor devem caminhar juntos procurando conhecer todas as possibilidades oferecidas pela tecnologia que os auxiliem a desenvolver um ensino e uma aprendizagem em que a criatividade e a interação sejam as principais características.
O supervisor escolar na questão do uso adequado da tecnologia deve ser parceiro do professor no sentido de conhecer e analisar todos os recursos disponíveis buscando a sua melhor utilização. Nada adianta fazer uso da tecnologia se isso não é feito da melhor maneira possível. As crianças e os adolescentes até podem apresentar, muitas vezes, um conhecimento bem mais adiantado de todas as ferramentas tecnológicas hoje existentes, mas esse conhecimento não será útil se ele não for utilizado de maneira crítica. Supervisor e professor devem caminhar juntos procurando desenvolver, em todos os trabalhos envolvendo a tecnologia, a competência crítica dos alunos.
O uso adequado da tecnologia no ambiente escolar requer cuidado e atenção por parte do professor para avaliar o que vai ser usado e reconhecer o que pode ou não ser útil para facilitar a aprendizagem de seus alunos os tornado críticos, cooperativos, criativos. Além disso, requer do supervisor escolar uma disposição para aceitar o novo, conhecê-lo senão profundamente, em parte, para ser capaz de julgá-lo e procurar encaixá-lo na sua prática e na do professor da sua escola.
Dessa forma conclui-se que o uso das novas tecnologias na educação e no ambiente escolar é algo que existe e deve ocorrer. No entanto, é algo que deve ser feito com cuidado para que a tecnologia (computador, Internet, programas, CD-ROM, televisão, vídeo ou DVD) não se torne para o professor apenas mais uma maneira de “enfeitar” as suas aulas, mas sim uma maneira de desenvolver habilidades e competências que serão úteis para os alunos em qualquer situação de sua vida. O uso das tecnologias deve proporcionar dentro do ambiente escolar uma mudança de paradigma, uma mudança que vise à aprendizagem e não o acumulo de informações.
NOVAS TECNOLOGIAS PODEM LIMITAR E ESCRAVIZAR O HOMEM
Entrevista - Paulo Blikstein
Os sofisticados recursos tecnológicos de que hoje dispomos do celular à internet, podem, ao contrário do que se espera e do que se imagina, ser limitadores e empobrecedores, além de, em muitos casos, acentuar desigualdades e escravizar seus usuários. É preciso, portanto, que deixemos o fascínio de lado e sejamos críticos das novas tecnologias, questionando-as a cada minuto, ao invés de idolatrá-las e almejar ter acesso a elas inquestionavelmente. "Se a pessoa está no restaurante, ela está trabalhando, porque toca o celular; se ela está em casa, é alcançada pelo e-mail. São 24 horas disponíveis para o trabalho, sem que se ganhe mais por isso", alerta o pesquisador Paulo Blikstein, mestre em Tecnologias da Educação pela Universidade de São Paulo, e cuja tese põe uma série de pontos de interrogação, por exemplo, nos cursos pela internet, ou e-learning, que ganham cada vez mais adeptos, em grandes corporações e nas universidades. Para Blikstein, pós-graduando e pesquisador do Media Lab do Massassuchets Institute of Technology (MIT), no grupo de Seymour Papert e David Cavallo, denominado O futuro da aprendizagem (The future of learning ), os cursos via internet reproduzem o mesmo modelo da hoje criticada educação tradicional, apenas travestindo-se de modernos. "Quem disse que a internet será sempre a melhor mídia para se ensinar determinado assunto?", pergunta Blikstein que já dirigiu documentários científicos, foi apresentador e roteirista de televisão e professor de Comunicação Empresarial na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Como analisa ele, a mudança de paradigmas na educação de forma geral ainda não se concretizou, o que faz com que os cursos pela internet reproduzam velhos hábitos e velhas formas de se trabalhar.
ELIANE BARDANACHVILI - A educação via internet vem sendo cada vez mais procurada por grandes corporações que desejam treinar ou atualizar seus funcionários e por quem quer driblar distâncias para fazer um curso universitário em outra cidade ou país. No entanto, quem faz ainda está aprendendo a fazer e quem adquire está aprendendo a conhecer. Que cuidados é preciso tomar, dos dois lados?
- A educação, de modo geral, não respeita a criatividade, não respeita as diferenças, as diversas formas de aprender de cada pessoa. Paulo Freire, Seymor Papert e vários outros teóricos da educação vêm dizendo isso, há décadas. Mas a escola é mais ou menos a mesma, há, pelo menos, 500 anos. O que significa, neste contexto, toda essa busca por se colocarem computadores nas escolas, ensinarem as crianças a mexer no computador, introduzir a educação via internet? Poderíamos pensar de início, que a existência de novas tecnologias vem criando essas demandas, uma vez que torna possível uma série de coisas que antes seriam impensáveis. Mas é preciso inverter um pouco isso. As novas tecnologias são mais resultado do que causa. Resultam de uma mudança no sistema econômico, nos sistemas de produção, na forma pela quais as empresas funcionam. O avanço tecnológico acelerou-se a partir de uma demanda, da sociedade, mais especificamente, do sistema produtivo. É comum termos a idéia de que a tecnologia vai se desenvolvendo sozinha, mas, na verdade, existem interesses de empresas, de países, que dirigem o desenvolvimento tecnológico.
- E para que lado o dirigem?
- Se os grandes laboratórios do mundo, as grandes universidades, as grandes empresas estivessem concentradas em descobrir formas de eliminar a miséria do mundo, em dez anos de pesquisa, possivelmente, conseguiriam atingir esse objetivo. Mas não há grande interesse econômico nisso para essas instituições. A tecnologia tem importância fundamental para as empresas; elas estão se espalhando pelo mundo e querem ter a possibilidade de buscar em qualquer país condições mais favoráveis para a realização de determinada etapa do processo de produção. Uma empresa que produz carros não precisa produzi-los nos Estados Unidos e pagar os salários altos que o trabalhador norte-americano recebe. Ela pode projetar os carros lá, produzir os pneus na África, a carroceria no Brasil e montar os carros na Tailândia. As tecnologias surgiram para viabilizar isso, atendendo o sistema produtivo, que tenta reduzir seus custos de produção, explorando em cada país o que mais lhe interessa.
- Não se põe os avanços tecnológicos a serviço do bem estar de forma geral?
- O avanço tecnológico não é uma coisa imparcial e neutra como querem que o percebamos. É preciso ter uma postura crítica, e estar atento para identificar se as inovações tecnológicas são, realmente, benéficas para a maioria das pessoas, ou se acentuam a exploração veladamente, embaladas de forma a parecerem muito interessantes, indispensáveis e acessíveis a todos.
- De que forma as inovações tecnológicas nos enganam?
- Temos a idéia de que, quanto mais aparelhos eletrônicos, melhor é a nossa vida. E de que, se tivermos um celular, um e-mail, um note book com conexão com a internet, nossa vida ficará melhor. Podemos saber notícias, previsão do tempo, saldo da conta bancária, a qualquer momento, em qualquer lugar. Mas qual é o resultado disso? É que a jornada de trabalho das pessoas está aumentando, sem que elas se dêem conta e sem a correspondente remuneração. Se a pessoa está no restaurante, está trabalhando, porque toca o celular; se ela está em casa, é alcançada pelo e-mail. São 24 horas disponíveis para o trabalho. Há cinco anos, ter um celular era sinal de riqueza. Hoje, poder não ter um celular é que é sinal de riqueza. Estar liberto da conexão permanente com o trabalho é privilégio de poucos.
- Não se pode encontrar uma forma de termos benefícios com os avanços tecnológicos?
- Sim. É justamente aí que entra a necessidade de espírito crítico, de criatividade, e a importância da educação para a cidadania. As pessoas deveriam estar aprendendo a ser subversivas em relação às novas tecnologias e ao conhecimento, ao invés de serem, simplesmente, usuárias de processadores de texto. Os hackers são um exemplo de subversão das tecnologias, mas sua ação é excessivamente técnica e dispersa. Ser subversivo, nesse contexto, significa desafiar o ciclo de vida cada vez mais rápido dos produtos, estabelecer ambientes de aprendizado alternativos (sejam presenciais, sejam via internet), fortalecer o controle social das tecnologias e das redes de comunicação, defender a privacidade das pessoas e ter espírito crítico para filtrar as informações que recebemos todos os dias. Aceitamos demais, acreditamos demais, consumimos mais do que precisamos.
- Como essa análise se dá em relação à educação pela internet, ao e-learning?
- É preciso, primeiro, detectar o que move a maioria dos projetos de educação, de forma geral, e de educação associada às novas tecnologias. O objetivo não é, como se divulga o de formar pessoas mais críticas, mais autônomas, independentes intelectualmente, mas pessoas multifuncionais, que tenham grande habilidade com computador, tenham iniciativa, que tragam inovação à empresa.
- E isso é ruim?
- Isso é embalado por alguns discursos duvidosos como o de que se vai aprender por toda a vida, ou de que a vida é um grande ambiente de aprendizagem. Esse é o discurso, mas, por trás dele, a intenção é moldar as pessoas a um novo mercado, no qual os funcionários são poucos para muito trabalho.
- É possível evitar o avanço da tecnologia? De que forma canalizar esse avanço para interesses menos associados ao sistema de produção?
- Esse avanço, de certa forma, é inevitável, mas o aproveitamento dessa tecnologia pode ser feito de outra forma.
- Como?
- Aproveitar as novas tecnologias de forma mais humana tem duas dimensões. A primeira é política: devemos estar atentos para manter o controle público e o uso ético de uma série de tecnologias e descobertas científicas. Se não tomarmos cuidado, estaremos fazendo testes de DNA em processo de seleção de emprego. A segunda dimensão é educacional: precisamos formar pessoas mais rebeldes, mais criativas, mais questionadoras, mais críticas, que duvidem das verdades da mídia e da opinião pública.
- De que forma o espaço para a rebeldia pode ser aberto na escola?
- A escola nunca foi pensada como instituição para promover a democratização do conhecimento, embora nos dê essa impressão. O objetivo primeiro da escola tem sido o de formar as pessoas para atuar na sociedade, dentro de determinados preceitos. O que mais se aprende na escola, mais do que conteúdos, é a se comportar na sociedade. A escola tradicional concentra-se em ensinar as pessoas a respeitar horários, a ter disciplina, a respeitar o poder e a hierarquia, a ter bom comportamento. E isso é o que educadores como Paulo Freire sempre questionaram: a estrutura de poder, que faz com que a escola seja uma produtora em série de alunos que absorvem passivamente determinados modelos de comportamento, de obediência.
- Os cursos pela internet precisam basear-se nos mesmos paradigmas que norteiam, hoje, a reformulação da educação formal? Esses cursos voltados para demandas corporativas, de atualização em serviço de funcionários, por exemplo, não podem ser mais pontuais?
- É um erro considerar que existam dois mundos - um corporativo e um pessoal ou exterior. No mundo corporativo, diz-se que as coisas têm que ser sérias, específicas, precisas. Mas as pessoas não funcionam assim. Os cursos pela internet têm índice de evasão altíssimo. Nas empresas, para garantir que o funcionário faça o curso até o fim, é preciso prometer que o certificado valerá bônus anuais ou que não fazer o curso vai levar a pessoa a ser chamada à sala do chefe para uma repreensão. A motivação para aprender, seja dentro da empresa, seja dentro da escola, precisa ser genuína, criando-se interesse na pessoa por aquilo que ela está aprendendo. Já realizei treinamentos em empresas, em Comunicação, e fazíamos dramatizações, gravávamos cenas em vídeo, os alunos assistiam, analisavam, enfim, interagiam muito. A troca de experiências pessoais, o aprendizado colaborativo, em que o todo é maior do que a soma das partes, era o mais importante. Se o curso passa para a internet, com algumas páginas na linguagem html e alguns exercícios, algumas animações para que pareça moderno, no final, estará reduzindo drasticamente as possibilidades de interação humana com o professor, de construção coletiva do conhecimento. A maioria dos cursos pela internet para corporações parece mais um adestramento. O paradigma é o mesmo do de um livro didático: você lê um pouco de texto, faz exercícios e pronto.
- Eliminar a possibilidade de se aprender a distância não é o mesmo que ignorar um recurso valioso que a internet pode nos oferecer? O senhor é contra os cursos a distância ou contra os que estão hoje no mercado?
- Minha tese de mestrado é, justamente, sobre uma proposta de se utilizarem as novas tecnologias e o ensino presencial de forma integrada. A idéia é criar um novo ambiente de aprendizado, que alie educação presencial e virtual, sem que o conhecimento seja criado por um grupo restrito de pessoas, de forma centralizada. Só que as empresas de consultoria empresarial chegam a uma corporação e dizem que vão reduzir os custos com treinamento em 80%, porque vão fazer cursos pela internet, em que não é necessário o professor, não são necessárias salas especiais, cada funcionário faz o curso em sua mesa de trabalho etc. Essa linha de argumentação significa que se quer gastar menos dinheiro, para se atingir o mesmo resultado. E não melhorar o resultado gastando menos dinheiro.
- Os cursos pela internet não são mais baratos? Afinal, os recursos são muitos.
- A vice-reitora da Universidade Aberta da Inglaterra, uma das primeiras grandes experiências em educação a distância do mundo, costuma explicar como funcionam seus cursos. Cada dez, quinze alunos têm um monitor, equipes atualizam os conteúdos constantemente, há pessoas que acompanham a trajetória dos alunos pelo curso, enfim, o custo é alto, o mesmo de um curso tradicional.
- Quais são os pontos positivos, afinal, da internet, no que diz respeito à educação?
- A internet é um vasto terreno de pesquisa, de informação, de interação mundial em tempo real. Existem muitos mecanismos de interatividade e trabalho em conjunto. Quando existe um vínculo entre as pessoas, esse trabalho fica interessante. Se não há o vínculo, é um trabalho empobrecido. É interessante começar criando um vínculo pessoal e continuar com um vínculo pela internet. O problema é que, ao se programar um curso de Física, por exemplo, contrata-se uma equipe para pesquisar o conteúdo, redigir um texto, criar ilustrações e figuras, para, depois disso, as pessoas lerem passivamente tudo na tela do computador.
- Recursos como grupos de discussão e contatos com o professor por e-mail não são suficientes para se criar uma interatividade?
- Na verdade, reproduz-se o mesmo paradigma do ensino tradicional, em que se tem o professor responsável pela produção e pela transmissão do conhecimento. Mesmo os grupos de discussão, os e-mails, são, ainda, formas de interação muito pobres. Os cursos pela internet acabam considerando que as pessoas são recipientes de informação. A educação continua a ser, mesmo com esses aparatos tecnológicos, o que ela sempre foi: uma obrigação chata, burocrática. Se você não muda o paradigma, as tecnologias acabam servindo para reafirmar o que já se faz.
- Qual deve ser o ponto de partida de quem vai criar um curso que tenha a internet como meio?
- Quando esses projetos estão nas mãos de consultorias empresariais, de gestão empresarial, e xx em empresas de tecnologia, a ênfase fica na tecnologia, na redução de custos. É uma questão de cultura dessas empresas. O primeiro cuidado a se tomar quando se quer trabalhar com educação a distância pela internet, é refletir sobre o paradigma de educação que vai norteá-lo. É preciso ter, primeiro, uma idéia do curso que se quer oferecer para, depois, pensar na tecnologia necessária para desenvolvê-lo. Deve-se pensar primeiro, na Educação, não na tecnologia. Quem disse que a internet é a melhor mídia para se ensinar determinada coisa? Talvez a melhor solução para um curso a distância seja uma articulação entre várias mídias: um pouco pela internet, um pouco em papel, um pouco em encontros presenciais, um pouco pela televisão, uma mídia muito poderosa. Há uma série de ações educativas que podem se articular para que se chegue a produtos educacionais interessantes.
- A internet não deve moldar o curso, mas ser um dos meios para realizá-lo...
- Sim. Se você começa pensando "quero fazer alguma coisa com internet, mas já se faz e-commerce, já se vendem serviços, então, vou fazer educação", aí, começa a distorção. A maioria das experiências de cursos pela internet, hoje, é ruim. Tem uma qualidade pedagógica, de inovação, ruim. Meu orientador nos Estados Unidos, David Cavallo, costuma dizer que a educação a distância vem reunindo o que há de pior em educação e o que há de pior em distância.
- O que pode ser feito para que se garanta um trabalho de qualidade?
- Nos Estados Unidos, as empresas de e-learning já perceberam que produzir conhecimento não é a mesma coisa que colocar CDs para vender na internet. Então, elas estão se associando a grandes universidades americanas para, exatamente, usar a experiência, o conhecimento, o know-how acumulados em educação que essas universidades têm. Por um lado, isso transforma quem trabalha na universidade, indiretamente, em produtor de conteúdos para cursos online. Há quem critique isso.
- Por quê?
- Vários artigos têm sido escritos sobre isso, por americanos como David Noble, que considera isso uma "proletarização do trabalho universitário" e uma "comoditização do saber universitário". Se pega o conhecimento da universidade, o conteúdo dos cursos, o material didático, a experiência dos professores e encapsula-se tudo isso em cursos on-line. Depois, para o tipo de curso que se cria, acaba-se não precisando de professores tão qualificados. Temos o exemplo, nos Estados Unidos, da Unext, uma grande empresa de educação pela internet, que se associou à Universidade de Chicago e que tem um dos diretores como conselheiro da universidade. Isso gera conflito de interesses. Em várias universidades americanas, professores estão indignados com esses acordos, fazem protestos, manifestos etc. Os termos são desfavoráveis para a universidade.
- Não há aspectos positivos na associação de empresas de e-learning com universidades?
- Quando a empresa se apropria desse material, faz o uso que quiser dele, que deixa de pertencer a uma instituição universitária, para pertencer a uma empresa cujo controle é de acionista. Na universidade real, seja ela pública ou privada, as pessoas têm acesso ao que está acontecendo, têm acesso ao reitor, têm espaço para trocas, para negociações. Em uma universidade virtual, mal se sabe onde é a sede.
- E isso importa?
- O comércio é universal. Pode-se vender um sabonete no Brasil, nos Estados Unidos. Mas a educação não é universal; é local, integrada à cultura local. Em um curso de Tecnologia Aeroespacial on-line, por exemplo, pode-se ter certeza de que pontos mais avançados e estratégicos da tecnologia aeroespacial que as pessoas que estudam nos Estados Unidos, no Laboratório do MIT (Massachussets Institute of Technology) vão aprender ali, não serão incluídos no curso a distância. É um produto para exportação. Todos os produtos que o Brasil importa se comprados no local onde são fabricados, em geral, são melhores. Só que uma coisa é você comprar um CD americano. Outra coisa é comprar um curso on-line.
- O ensino via internet pode não despertar o interesse das empresas apenas por ser apresentado como um treinamento mais barato, mas por oferecer as vantagens de um recurso, pleno de agilidade, com o qual nunca se havia contado antes...
- Há um projeto interessante de educação a distância da Petrobrás, há muitos anos, para propiciar o acesso a cursos a pessoas que nunca poderiam sonhar com isso e que estão em diferentes pontos do país. Mas é um processo extremamente caro. Existem outras experiências, e não são novos. Entretanto, o que muitos querem, hoje, é a fórmula mágica, uma fábrica de cursos pela internet, uma produção em série. Querem se apropriar do conhecimento universitário e empacotar para viagem. A universidade deve questionar esse processo. Senão, a educação presencial será cada vez mais elitista e cara. E a educação a distância, um produto mais barato, de menor qualidade, para quem não puder pagar o outro. Esse é o grande perigo: reproduzir e aprofundar uma estrutura social perversa no uso das novas tecnologias.
MEDICINA, TECNOLOGIA DE PONTA E HUMANISMO
Missão corrente entre muitos que procuram auxílio médico para diminuir seus sofrimentos é a de que a medicina, já há um bom tempo, ganhou tanto em tecnologia quanto perdeu em humanidade. Portanto, o grande desafio daqueles que se propõe a cuidar da saúde alheia neste século 21 é conseguir conciliar a frieza de raciocínio exigida pelos avanços tecnológicos e terapêuticos com um comportamento mais humano, condição fundamental para uma saudável relação médico-paciente.
Uma das explicações que os estudiosos da prática médica postulam para esta perda da humanidade é que, ao preferir viver em simbiose com as máquinas e as mais modernas drogas, em detrimento de seu relacionamento pessoal com os pacientes, o médico tende a desvalorizar seu papel de agente ativo da cura, tornado-se, por ironia, ele também um simples objeto dessa mesma tecnologia.
Os conflitos médicos-pacientes são tão antigos quanto a própria medicina, têm raízes muito profundas e complexas e não podem ser encaixotado em explicações simplistas. As causas são várias, mas é interessante notar que, se de um lado, o médico arroga-se dono de todo o conhecimento e poder de cura, de outro, o paciente comporta-se de maneira contraditória: nutre expectativas exageradas quanto à capacidade da moderna tecnologia, ao mesmo tempo em que exige de quem o atende comportamento mais artesanal e antiquado.
De tão fascinante, o sutil embate emocional entre esses dois indivíduos que estão em pólos opostos, mas que dependem intimamente um do outro, pode render polêmicas acirradas, pontos de vista dúbios, reflexões interessantes sobre o ensino da prática médica e até bons enredos para romances. Neste último caso, se a obra foi escrita por um dublê de médico e paciente, dotado de talento no manuseio das palavras, tanto melhor, pois a credibilidade do texto e o prazer do leitor estarão garantidos.
Bons exemplos dessa combinação rara são dois livros lançados recentemente: My Own Medicine (ainda não disponível em português), do pneumologista americano Geofrrey Kurland, e Com uma Perna Só, do neuropsicólogo britânico, Oliver Sacks. Diretor da divisão de pneumologia pediátrica do Hospital Infantil de Pittsburgh, Estados Unidos, Kurland descobriu, aos 40 anos, um tumor em seu tórax, posteriormente diagnosticado como um tipo raro de leucemia associado à tuberculose pulmonar.
Repentinamente, o autor foi transportado para o limbo em que vivem os doentes com poucas chances de sobrevivência. Relembrando pacientes seus que foram submetidos a tratamentos similares, ele descobre quão humilhante, aterradora e dolorosa pode ser uma doença. Submetido a duas cirurgias e a sessões de quimioterapia, ele começa a encarar a própria profissão sob perspectivas mais humanas. A compaixão pelo paciente pode se apresentar de diversas formas, como ele próprio afirma: "Eu gastava o tempo com meus pacientes e seus pais tentando dissipar temores. Descobri que os doentes não desejam probabilidades. Eles querem certezas, por menos razoáveis que elas possam parecer".
Já Oliver Sacks, a pretexto de contar a história de um acidente que lhe provocou ruptura nos tendões do joelho, envereda pela descrição de seu frustrante relacionamento com um famoso professor de ortopedia que o operou. O desleixo, a arrogância e a falta de paciência com que foi brindado fizeram com que refletisse sobre sua própria postura profissional e percebesse que também incorrera no mesmo erro com seus pacientes, inúmeras vezes.
Autor de outro livro sobre comportamento médico - Tempo de Despertar, transformado em filme com Robin Willians e Robert De Niro - Sacks aproveitou o tempo de convalescença para elaborar uma teoria neuropsicológica capaz de explicar seu problema. Apesar de ser dono de acurada capacidade de observação, escapou-lhe um ensinamento freudiano muito bem lembrado pelo brasileiro J.C.Ismael em outro livro recente - O Médico & o Paciente. Breve História de uma Relação Delicada - onde ele enfatiza que o doente, por acreditar que sua doença só seria possível nos outros, passa a viver uma intensa inquietação existencial e, conseqüentemente, uma dolorosa ruptura entre o ego e o corpo, fazendo com que seus sintomas se agravem ou sejam distorcidos. Nesse pequeno estudo, o autor, além de fazer uma saborosa revisão histórica das origens da medicina, coloca os pingos nos "is" acerca da deterioração da relação médico-paciente através dos tempos.
Para completar, realizou uma série de entrevistas com pacientes, procurando saber o que eles esperavam receber em uma consulta médica. A conclusão foi simples: acima dos títulos de especialização e o luxo dos consultórios, os doentes desejam, sobretudo, ser confortados, escutados, olhados e tocados pelos seus médicos. Em outras palavras, anseiam ser tratados como indivíduos completos e não como meros portadores de doenças. O francês Philippe Meyer acrescenta uma nova variável à intrincada equação médico-paciente. Segundo ele, nos dias atuais, a tecnomedicina desviou o profissional de saúde do comportamento individual de seu paciente, de sua personalidade e alma.
Mergulhando no terreno da ficção, Meyer prevê um futuro difícil para o relacionamento médico-paciente. Em projeção futurista do que seriam o hospital e o médico do século 21, o autor imagina uma entidade asséptica, tecnocrata e totalmente desumanizada, controlada por semi-robôs. Nesse misto de hotel com laboratório de exames, as pessoas ficariam retidas apenas o tempo estritamente necessário aos cuidados, e os resultados da hospitalização seriam comunicados ao médico encarregado pelo paciente por um computador, servindo-se do código que garante o anonimato do doente. Nada mais frio e desumano.
A pergunta que o autor acaba por fazer, tendo em vista que o progresso tecnológico avança de forma irreversível, é como introduzir medidas de humanidade nesse tipo de serviço e, por conseguinte, no relacionamento dos médicos com seus pacientes. Segundo o autor, a preparação do futuro médico se desenvolve no curso de graduação, quando o aluno precisa reconhecer e aprimorar atitudes e comportamento que permitam um relacionamento adequado com seus futuros pacientes. “O futuro médico deve, principalmente, reconhecer naquele que o procura em busca de tratamento, alguém que precisa ser ouvido e compreendido, mais do que apenas tratado”.
A empreitada não é de fácil execução. Um ótimo exemplo dos percalços que um profissional de saúde enfrenta em sua formação pode ser encontrado no livro Complicações - Dilemas de um Cirurgião Diante de uma Ciência Imperfeita. Atul Gawande, médico residente de um hospital em Boston, fala sobre a rotina diária enfrentada pelo futuro cirurgião. Com relatos muito semelhantes aos roteiros do seriado Plantão Médico, o autor revela como a deformação da relação médico-paciente pode se iniciar já nos primeiros estágios da profissão.
Conjugar a frieza da técnica com a compaixão e a ternura pelo doente foi e será sempre a pedra de toque da medicina. É a capacidade de realizar essa sintonia fina que transmuta o médico de técnico em artista, como desejavam os gregos na Antiguidade. Muitas vezes não é o que acontece. Infelizmente, a prática médica desenvolve-se hoje por meio de uma relação sujeito-objeto, em que o médico-sujeito encarregado de executar a ação, dirige seu ato ao doente-objeto, sem voz e sem vez, sem opinião e sem vontade.
Resultado: o avanço da tecnologia, a despeito de auxiliar na cura, teima em conspirar contra o humanismo da medicina. Essa situação simbiótica entre o homem e a máquina envolve o risco de a relação médico-paciente se transformar numa relação objeto-objeto, quando o médico tende a desvalorizar sua participação e seu discernimento, submetendo-se a "conselhos" e "sugestões" que a máquina possa oferecer. Em outras palavras, entra em cena o médico-objeto legítimo produto do século 21.
Portanto, a questão que se impõe ao médico de hoje é se ele será capaz de aliar os vastos conhecimentos que a velocidade estonteante da tecnologia moderna produz, à capacidade intrínseca de se relacionar com seu paciente. Poderá se observá-lo como um indivíduo completo, e não como um mero portador de doença a ser tratada à custa de drogas e equipamentos de última geração. Difícil é saber, como diz Lima Gonçalves (Médicos e Ensino da Medicina no Brasil), de que maneira se pode ensinar esse dom. Cabe ao educador, portanto, identificar as características pessoais do futuro médico e, com elas, propor e desenvolver outras tantas que facilitem sua relação com o paciente.
Ciência, Tecnologia, Inovação e Termos Correlatos
"Ciência", "Tecnologia" e "Inovação" são universos que, apesar de interagirem permanentemente, designam conceitos distintos. Em linhas gerais, podem ser definidos como Resultado do encadeamento lógico das idéias e ações que auxiliam o homem na descoberta progressiva das estruturas dos sistemas existentes na natureza e de suas formas de funcionamento. Essas idéias e ações passam por fases de experimentação, de análise e de síntese para chegar a noções racionais, definitivas ou provisórias. Elas modificam constantemente os conceitos e comportamentos presentes na relação do homem face ao universo e face ao próprio homem.
Tecnologia
Elaboração e aperfeiçoamento dos métodos para assegurar o funcionamento dos mecanismos da produção, do consumo e do lazer assim como das atividades da pesquisa artística e científica. A tecnologia compreende desde as ferramentas mais simples até os microprocessadores e, no plano econômico, visa tornar cada vez mais rentáveis os investimentos.De acordo com a UNESCO, "a ciência é o conjunto de conhecimentos organizados sobre os mecanismos de causalidade dos fatos observáveis, obtidos através do estudo objetivo dos fenômenos empíricos"; enquanto "a tecnologia é o conjunto de conhecimentos científicos ou empíricos diretamente aplicáveis à produção ou melhoria de bens ou serviços" (Reis, Dálcio Roberto, “Ciência e Tecnologia” in http://www.xadrezeduca.com.br/site/h4).Segundo Laranja et al, diferem-se ainda os conceitos de técnica e tecnologia. "A técnica e a tecnologia são domínios cognitivos mais próximos da ação, ambas relacionadas com o 'saber-fazer'; entretanto, podemos definir a técnica como um 'saber-fazer' tácito e a tecnologia como um 'saber-fazer' explícito (Tecnologia: Dimensões e Disponibilidade. Fonte: Laranja, Simões e Fontes (1997), p. 15.).Quanto ao conceito de Inovação, está no Manual de Oslo.
Inovação:
Inovação tecnológica de produto ou processo compreende a introdução de produtos ou processos tecnologicamente novos e melhorias significativas em produtos e processos existentes. Considera-se que uma inovação tecnológica de produto ou processo tenha sido implementada se tiver sido introduzida no mercado (inovação de produto) ou utilizada no processo de produção (inovação de processo). As inovações tecnológicas de produto ou processo envolvem uma série de atividades científicas, tecnológicas, organizacionais, financeiras e comerciais. A firma inovadora é aquela que introduziu produtos ou processos tecnologicamente novos ou significativamente melhorados num período de referência (OCDE, Manual de Oslo, 1996, p.35).De acordo com a proposta da Lei de Inovação encaminhada em novembro de 2002 ao Congresso Nacional para aprovação, define-se inovação tecnológica como a "introdução de novidade no ambiente produtivo, seja ela produto ou processo, que traga melhoria significativa ou crie algo novo".Note-se que os domínios da Ciência, da Tecnologia e da Inovação relacionam-se de forma recíproca, interativa, afinal, o avanço da Ciência conta também com os diversos instrumentos e aparelhos resultantes da Tecnologia (por exemplo, os microscópios), sem os quais seriam impossíveis muitas pesquisas. Ao mesmo tempo, os resultados da Ciência promovem o aperfeiçoamento da Tecnologia e o seu progresso, por meio do processo de Inovação.
Outros conceitos
No Livro Verde do MCT, encontram-se as seguintes definições para alguns termos relacionados a Ciência, Tecnologia e Inovação.
Atividades Científicas e Tecnológicas
Atividades científicas e tecnológicas correspondem ao esforço sistemático, diretamente relacionado com a geração, avanço, disseminação e aplicação do conhecimento científico e técnico em todos os campos da Ciência e da Tecnologia. Incluem as atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) (cuja definição se encontra adiante), o treinamento e a educação técnica e científica, bem como os serviços científicos e tecnológicos. Treinamento e educação técnica e científica correspondem a todas as atividades relativas ao treinamento e ao ensino superior especializado não-universitário, ao ensino superior e ao treinamento para a graduação universitária, à pós-graduação e aos treinamentos subseqüentes, além do treinamento continuado para cientistas e engenheiros. Os serviços científicos e tecnológicos compreendem as atividades concernentes à pesquisa e ao desenvolvimento experimental, assim como as que contribuam para a geração, disseminação e aplicação do conhecimento científico e tecnológico.
